Conheço bem a dor humana e a solidão do tema dos ex-comandos africanos ao serviço do Exército Português. Estive na Guiné-Bissau há ano e meio. Almocei, jantei, fumei pensando alto, comi caldo de mancarra, provei as inesquecíveis laranjas de Iemberem, o arroz selvagem, o aroma da banana-maçã, dormi com eles, percorri antigas zonas de combate, vi as zonas minadas, assisti a baptizado, casamento e funeral de alguns familiares deles. Fiz amigos, fiz-me amigo. Excertos do que vivi foram passados a reportagem-exposição e a reportagem na Antena 1.

É, aliás, Bissau que me cede o nome-metáfora para este blog, Chão de Papel, o mesmo que, no caso guineense, território da etnia Papel, aqui adaptado às fragilidades (e não só) do mundo jornalístico.

Terça-Feira é a vez da televisão, ao estrear o programa Em Reportagem na RTP 1. Órfãos de Pátria, assina o trabalho o jornalista António Mateus.

Espero, com a brutalidade que a verdade empresta, que a reportagem provoque muita irritação a quem vê. Quem lá permanece, na solidão esplendorosa das matas do sul – onde 200km, em tempos de paz, podem demorar 14 horas a fazer – é também, ou sobretudo, órfão de voz.

E o meu lamento de sempre: o de que um tema deste tamanho seja tratado em 15 diminutos minutos, pleonasmo incluído: o tempo da publicidade em qualquer estação televisiva, o tempo do intervalo de um jogo de futebol, o tempo da maior pausa para recreio em qualquer escola secundária, o tempo de uma espera de autocarro, o tempo da falta de vontade de querer ter memória histórica.

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